Clic para ouvir e vê no YouTube. Senão, fica o poema.
Meu amor adeus Tem cuidado Se a dor é um espinho Que espeta sozinho Do outro lado Meu bem desvairado Tão aflito Se a dor é um dó Que desfaz o nó E desata um grito Um mau olhado Um mal pecado E a saudade é uma espera É uma aflição Se é Primavera É um fim de Outono Um tempo morno É quase Verão Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês Maresia Se a dor é um ciúme Que espalha um perfume Que me agonia Vem me ver amor De mansinho Se a dor é um mar Louco a transbordar Noutro caminho Quase a espraiar Quase a afundar E a saudade é uma espera É uma aflição Se é Primavera É um fim de Outono Um tempo morno É quase Verão Em pleno Inverno
.../ «Foi então que apareceu a raposa: - Bom dia - disse a raposa. - Bom dia - respondeu o principezinho com delicadeza. Mas ao voltar-se não viu ninguém. - Estou aqui - disse a voz -, debaixo da macieira… - Quem és tu? - disse o principezinho. - És bem bonita… - Sou uma raposa - disse a raposa. - Anda brincar comigo - propôs-lhe o principezinho. - Estou tão triste… - Não posso brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou. - Ah! perdão - disse o principezinho. Mas, depois de ter reflectido, acrescentou:
- Que significa “cativar”? - Tu não deves ser daqui - disse a raposa.
- Que procuras? - Procuro os homens - disse o principezinho.
- Que significa “cativar”? - Os homens - disse a raposa - têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas? - Não - disse o principezinho. - Ando à procura de amigos. Que significa “cativar”? - É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Significa “criar laços… - Criar laços? - Isso mesmo - disse a raposa. - Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Para ti. não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti… - Começo a compreender - disse o principezinho. - Existe uma flor, creio que ela me cativou. - É possível - disse a raposa. - Vê-se de tudo à superfície da Terra…».
Bertolt Brecht. Hoje, 10 de Fevereiro, é seu aniversário.
I
Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome. Por acaso estou sendo poupado. (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: Manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; Seguir seu caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. Sabedoria é isso! Mas eu não consigo agir assim. É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem, quando a fome reinava. Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta e me revoltei ao lado deles. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra. Eu comi o meu pão no meio das batalhas, deitei-me entre os assassinos para dormir, Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas em que nós perecemos, pensem, quando falarem das nossas fraquezas, nos tempos sombrios de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes, mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados! quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos: o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca! Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão.
Trouxe de Viriato Porto, um amigo virtual no FB.
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
A melhor cerejeira do meu pedaço de terra.
"Se não puderes ser um pinheiro no topo da colina Sê um arbusto no vale – mas o melhor arbusto na encosta do monte. Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva e dá alegria a um caminho. Se não puderes ser almíscar, sê então apenas uma tília, Mas a tília mais viva do lago. Não podemos ser todos capitães, temos de ser tripulação. Há alguma coisa para todos nós aqui. Há grandes obras e outras menores a realizar, E é a próxima tarefa que devemos empreender. Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda. Se não puderes ser o sol, sê uma estrela. Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso. Sê o melhor de o que quer que sejas!"
Poema que inclui no meu 1º Curriculum Vitae, num ano da década de 80.
De tudo ficou um poucoDo meu medo. Do teu asco.Dos gritos gagos. Da rosaficou um pouco Ficou um pouco de luzcaptada no chapéu.Nos olhos do rufiãode ternura ficou um pouco(muito pouco). Pouco ficou deste póde que teu branco sapatose cobriu. Ficaram poucasroupas, poucos véus rotospouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco.Da ponte bombardeada,de duas folhas de grama,do maço- vazio - de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco.Fica um pouco de teu queixono queixo de tua filha.De teu áspero silêncioum pouco ficou, um pouconos muros zangados,nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudono pires de porcelana,dragão partido, flor branca,ficou um poucode ruga na vossa testa,retrato. Se de tudo fica um pouco,mas por que não ficariaum pouco de mim? no tremque leva ao norte, no barco,nos anúncios de jornal,um pouco de mim em Londres,um pouco de mim algures?na consoante?no poço? Um pouco fica oscilandona embocadura dos riose os peixes não o evitam,um pouco: não está nos livros. De tudo fica um pouco.Não muito: de uma torneirapinga esta gota absurda,meio sal e meio álcool,salta esta perna de rã,este vidro de relógiopartido em mil esperanças,este pescoço de cisne,este segredo infantil... De tudo ficou um pouco:de mim; de ti; de Abelardo.Cabelo na minha manga,de tudo ficou um pouco;vento nas orelhas minhas,simplório arroto, gemidode víscera inconformada,e minúsculos artefatos:campânula, alvéolo, cápsulade revólver... de aspirina.De tudo ficou um pouco. E de tudo fica um pouco.Oh abre os vidros de loçãoe abafa o insuportável mau cheiro da memória. Mas de tudo, terrível, fica um pouco,e sob as ondas ritmadase sob as nuvens e os ventose sob as pontes e sob os túneise sob as labaredas e sob o sarcasmoe sob a gosma e sob o vômitoe sob o soluço, o cárcere, o esquecidoe sob os espetáculos e sob a morte escarlatee sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantese sob tu mesmo e sob teus pés já durose sob os gonzos da família e da classe,fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão.Às vezes um rato
Leve, Tão leve … ... Volátil ou voador, Às vezes cacto, outras vezes flor. Leve, Sem regras, barreiras ... fronteiras, Sem censura nem clausura. Às vezes atroz outras vezes doçura Leve, O vento, o sorriso … O pensamento, Leves as palavras de amor, O perfume de uma flor. Leve o olhar em que fraquejo, Leve o beijo em que arquejo Leve o arrepio na pele O sonho que me embala Que me transporta e suspende Que me empurra e surpreende. Leve o arrepio na pele. Leve o sonho que me motiva Que me preenche e cativa Leve o sonho de ser gente De sorrir e estar presente Leve o tempo de sorrir De dar e repartir Leve … Loucura de ser feliz
Trouxe de «Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen» FERNANDA PAIXÃO (a publicar)
Quando o dia entardeceu E o teu corpo tocou Num recanto do meu Uma dança acordou E o sol apareceu De gigante ficou Num instante apagou O sereno do céu E a calma a aguardar lugar em mim O desejo a contar segundo o fim. Foi num ar que te deu E o teu canto mudou E o teu corpo do meu Uma trança arrancou E o sangue arrefeceu E o meu pé aterrou Minha voz sussurrou O meu sonho morreu Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada. Dá-me o quarto vazio da minha casa Vou deixar-te no fio da tua fala. Sobre a pele que há em mim Tu não sabes nada. Quando o amor se acabou E o meu corpo esqueceu O caminho onde andou Nos recantos do teu E o luar se apagou E a noite emudeceu O frio fundo do céu Foi descendo e ficou. Mas a mágoa não mora mais em mim Já passou, desgastei Para lá do fim É preciso partir É o preço do amor Para voltar a viver Já não sinto o sabor A suor e pavor Do teu colo a ferver Do teu sangue de flor Já não quero saber. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O quarto vazio na madrugada Vou deixar-te no frio da tua fala. Na vertigem da voz Quando enfim se cala.
As bestas chamam-se Andorinha, Neblina ou Baronesa, Marquesa, Princesa. Esta é Sereia, aquela, Pelintra e tem a bela Estrela. Relógio, Soberbo e Lambari são burros. O cavalo, simplesmente Majestade. O boi Besouro, outro, Beija-Flor e Pintassilgo, Camarão, Bordado. Tem mesmo o boi chamado labirinto. Ciganinha, esta vaca; outra, Redonda. Assim pastam os nomes pelo campo, ligados à criação. Todo animal é mágico.
O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, Cansaço...
No shadow no stars no moon no cars November it only believes in a pile of dead leaves and a moon that's the color of bone
No prayers for November to linger longer stick your spoon in the wall we'll slaughter them all
November has tied me to an old dead tree get word to April to rescue me November's cold chain
Made of wet boots and rain and shiny black ravens on chimney smoke lanes November seems odd you're my firing squad November
With my hair slicked back with carrion shellac with the blood from a pheasant and the bone from a hare tied to the branches of a roebuck stag left to wave in the timber like a buck shot flag
Go away you rainsnout go away blow your brains out November
«(O Sonho é a nossa arma)». Nunca devemos deixar de sonhar.
Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu, a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
pura lutar;
SONHAMOS.
…enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim. sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.
In A Poesia Continua, velhas e novas circunstâncias, casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
À terra vai-se pela estrada em frente Novembro é quanta cor o céu consente Às casas com que o frio abre a praça.
Dezembro vibra vidros brande as folhas A brisa sopra e corre e varre o adro menos mal Que o mais zeloso varredor municipal Mas que fazer de toda esta cor azul
Que sobre os campos neste meu país do sul? A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada A boca é pra comer e pra trazer fechada O único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada O corpo curva ao peso de uma alma que não sente Todos temos janela para o mar voltada O fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa A saudade e o transístor sob o céu azul A indústria prospera e fazem-se ao abrigo Da velha lei mental pastilhas de mentol
O português paga calado cada prestação Para banhos de sol nem casa se precisa E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa E o colégio do ódio é a patriótica organização
Morre-se a ocidente como o sol à tarde Cai a sirene sob o sol a pino Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde Nessa orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem A vida não contém contentamento E a nação faz um apelo à mãe Atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer É o pescador cuspido à praia à luz do dia Pois a areia cresceu e o povo em vão requer Curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada Que põe a pedra entre o homem e a mulher O homem vende a vida e verga sob a enxada O meu país é o que o mar não quer
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(1933-1978)
Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
Quem me roubou o tempo que era um quem me roubou o tempo que era meu o tempo todo inteiro que sorria onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro e onde por si mesmo o poema se escrevia
In "RELÂMPAGO" Nº 9 (Out. de 2001), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)
Vem, serenidade! Vem cobrir a longa fadiga dos homens, este antigo desejo de nunca ser feliz a não ser pela dupla umidade das bocas.
Vem, serenidade! Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros e com que os ombros subam à altura dos lábios, faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos. Carrega para a cama dos desempregados todas as coisas verdes, todas as coisas vis fechadas no cofre das águas: os corais, as anêmonas, os monstros sublunares, as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade, com o país veloz e virginal das ondas, com o martírio leve dos amantes sem Deus, com o cheiro sensual das pernas no cinema, com o vinho e as uvas e o frêmito das virgens, com o macio ventre das mulheres violadas, com os filhos que os pais amaldiçoam, com as lanternas postas à beira dos abismos, e os segredos e os ninhos e o feno e as procissões sem padre, sem anjos e, contud com Deus molhando os olhos e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade, com a paz e a guerra derrubar as selvagens florestas do instinto.
Vem, e levanta palácios na sombra. Tem a paciência de quem deixa entre os lábios um espaço absoluto.
Vem, e desponta, oriunda dos mares, orquídea fresca das noites vagabundas, serena espécie de contentamento, surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes, dos números irreais de todas as semanas, dos caixeiros sem cor e sem família, das flores que rebentam nas mãos dos namorados dos bancos que os jardins afogam no silêncio, das jarras que os marujos trazem sempre da China, dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade, e põe no peito sujo dos ladrões a cruz dos crimes sem cadeia, põe na boca dos pobres o pão que eles precisam, põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços, para junto das campas dos jovens que morreram, para junto das artérias que servem de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade! E do salgado bojo das tuas naus felizes despeja a confiança, a grande confiança. Grande como os teus braços, grande serenidade!
E põe teus pés na terra, e deixa que outras vozes se comovam contigo no Outono, no Inverno, no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade, para que se não fale nem da paz nem da guerra nem de Deus, porque foi tudo junto e guardado e levado para a casa dos homens.
Vem, serenidade, vem com a madrugada, vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua, com as nuvens que proíbem o céu, vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela, o volume dos corpos saciados na cama, as mil aparições do amor nas esquinas, as dívidas que os pais nos pagam em segredo, as costas que os marinheiros levantam quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade, e lembra-te de nós, que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio, um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos, desta roupa de imagens que me cobre o corpo silencioso, das noites que passei perseguindo uma estrela, do hálito, da fome, da doença, do crime, com que dou vida e morte a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade, e acaba com o vício de plantar roseiras no duro chão dos dias, vicio de beber água com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade, não apagues ainda a lâmpada que forra os cantos do meu quarto, o papel com que embrulho meus rios de aventura em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade! E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe, mais úmida que a pele marítima do cais, mais branca que o soluço, o silêncio, a origem, mais livre que uma ave em seu vôo, mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo, mais humana e alegre que o sorriso das noivas, do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
De manhã, quando as carroças de hortaliça chiam por dentro da lisa e sonolenta tarefa terminada, quando um ramo de flores matinais é uma ofensa ao nosso limitado horizonte, quando os astros entregam ao carteiro surpreendido mais um postal da esperança enigmática, quando os tacões furados pelos relógios podres, pelas tardes por trás das grades e dos muros, pelas convencionais visitas aos enfermos, formam, em densos ângulos de humano desespero, uma nuvem que aumenta a vã periferia que rodeia a cidade, é então que eu te peço como quem pede amor: Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis, vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos, o riso que não é da boca nem dos dentes mas que se espalha, inteiro, num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade, antes que os passos da noite vigilante arranquem as primeiras unhas da madrugada, antes que as ruas cheias de corações de gás se percam no fantástico cenário da cidade, antes que, nos pés dormentes dos pedintes, a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos, a revolta semeie florestas de gritos e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade, leva-me num vagão de mercadorias, num convés de algodão e borracha e madeira, na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes, na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe deste bíblico espaço, desta confusão abúlica dos mitos, deste enorme pulmão de silêncio e vergonha. Longe das sentinelas de mármore que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão, conversando com velhos tripulantes descalços, crianças criminosas fugidas à policia, moços contrabandistas, negociantes mouros, emigrados políticos que vão em busca da perdida liberdade, Vem, serenidade, e leva-me contigo. Com ciganos comendo amoras e limões, e música de harmônio, e ciúme, e vinganças, e subindo nos ares o livre e musical facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade! Os comboios nos esperam. Há famílias inteiras com o jantar na mesa, aguardando que batam, que empurrem, que irrompam pela porta levíssima, e que a porta se abra e por ela se entornem os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo: Acorda minha Mãe quando ela dorme, quando ela tem no rosto a solidão completa de quem passou a noite perguntando por mim, de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta, a confundir, numa só e lúcida claridade, a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade, e absolve os vencidos, regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos e dá-lhes nomes novos, novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas, as mentiras da fé, os amigos medrosos, os assombros da índia imaginada, o espanto aprendiz da nossa fala, ainda nossa, ainda bela, ainda livre destes montes altíssimos que tapam as veias ao Oceano.
Vem, serenidade, e faz que não fiquemos doentes, só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos, e não cedas demais ao vislumbre de vermos a nossa idade exata outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso da melancolia, e põe ordem no caos e carne nos espectros, e ensina aos suicidas a volúpia do baile, e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem, e não apagues nunca o fogo que os consome. o impulso que os coloca, nus e iluminados, no topo das montanhas, no extremo dos mastros na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste à multiplicação original do Mundo: Um manto terníssimo de espuma, um ninho de corais, de limos, de cabelos, um universo de algas despidas e retráteis, um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha das mais simples paixões, do jogo que jogamos sem parceiro, dos humilhantes nós que a garganta irradia, da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento, com tua alucinante e alucinada mão, e põe, no religioso ofício do poema, a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me da traição dos encontros, do engano na presença de Aquele cuja palavra é silêncio, cujo corpo é de ar, cujo amor é demais absoluto e eterno para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal, para sempre obscena, para sempre inocente, Serenidade, és minha.
RAUL DE CARVALHO (1920-1984) / serenidade és minha (1955)
E se alguém vier dizer-te que te amo, não acredites, não ligues, deixa andar. É fantasia minha, sem sentido nem lugar, bebedeira de Absoluto a curto prazo, sem pertença. Já nem eu sei se de tanto sou capaz. Não sei se estou longe de ti, aqui onde te guardo, se estou contigo na infinita distância que vai de um ser a outro, e nos separa. Ter palavras e ter cara parece que não basta. Há sempre um silêncio grosso entre as pessoas. Se a vida nos sustenta, se nos tenta, e, depois, nos atraiçoa e não compensa, porque nos nascem sonhos como doença que só o tempo, como a tudo o resto, cura?
Tens agora outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram, caprichosas,
As sombras da lonjura,
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...
Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa...
Todas as deusas são mulheres ausentes...
In DIÁRIO IX (1964), in ANTOLOGIA POÉTICA (Coimbra, 4ª ed., 1994)
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria
nessa altura o verão vinha ainda muito longe
e por isso era possível acreditar em frases dessas
esperando que tudo acontecesse
como nos perdoáveis lugares-comuns dos filmes
que estreiam sempre no natal
e furiosamente desejei que a paixão se enredasse
entre os limos e sargaços das tuas pernas
mas agosto foi apenas um lugar de emboscadas
em todos os precipícios da nossa cama
e lentamente as águas definiram
com rigor implacável
o que sobrava de ti nas minhas mãos
e o silêncio baixou sobre as águas
como antes da invenção do mundo
e agora não sei onde acaba o teu nome
e começa o nome de deus
Gostava de morar na tua pele desintegrar-me em ti e reintegrar-me não este exílio escrito no papel por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres ser alma em tua alma em um só corpo não o perto e o distante entre dois seres não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem este prazer que dói como outro algum e este estar-se tão dentro e sempre aquém.
«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.
Suzanne takes you down to her place newer the river You can hear the boats go by You can spend the night beside her And you know that shes half crazy But thats why you want to be there And she feeds you tea and oranges That come all the way from china And just when you mean to tell her That you have no love to give her Then she gets you on her wavelength And she lets the river answer That youve always been her lover And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that she will trust you For youve touched her perfect body with your mind.
And jesus was a sailor When he walked upon the water And he spent a long time watching From his lonely wooden tower And when he knew for certain Only drowning men could see him He said all men will be sailors then Until the sea shall free them But he himself was broken Long before the sky would open Forsaken, almost human He sank beneath your wisdom like a stone And you want to travel with him And you want to travel blind And you think maybe youll trust him For hes touched your perfect body with his mind.
Now suzanne takes you hand And she leads you to the river She is wearing rags and feathers From salvation army counters And the sun pours down like honey On our lady of the harbour And she shows you where to look Among the garbage and the flowers There are heroes in the seaweed There are children in the morning They are leaning out for love And they will lean that way forever While suzanne holds the mirror And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that she will trust you For shes touched your perfect body with her mind.
Suzanne é parte do álbum de estreia «Songs of Leonard Cohen» lançado em 1967.
Junto ao mar no Caminho dos Caídos, Vila Praia D'Âncora
Dirão outros, em verso, outras razões, Quem sabe se mais úteis, mais urgentes. Deste cá, não mudou a natureza, Suspensa entre duas negações. Agora, inventar arte e maneira De juntar o acaso e a certeza, Leve nisso, ou não leve, a vida inteira. Assim como quem rói as unhas rentes.
Gosta de mim, de aí, de longe Eu trago nome de flor, mas, sou mais picos do que rosa. Neste silêncio de floresta queimada, sou perigosa, e, na surpresa da esperança, a ilusão que os teus passos trazem podia até fazer-me mal.
Gosta de mim à distância, que é a maneira de não te magoares. A minha vida é uma sucessão de becos que venço porque me mato por dentro, uma cadeia de revezes toda enfeitada de espinhos.
Gosta de mim sem proximidade, que a minha sanidade está por um fio. Se me penso na curva quieta de rio, onde a água canta nas pedras e os torvelinhos se acalmam, baixo a guarda. Logo desperto, para dar comigo, outra vez, perdida de mim, no deserto.
Gosta de mim, de aí, lugar a salvo, para lá deste muro de marfim, não vá eu cair na asneira de sentir que chegou a minha hora de abrir janelas Para a Alma, e ser feliz.
«Um estalo a fez compreender o que aconteceu naquela noite de lua cheia e céu pintado de negro. Ainda não conseguia apreender o sentido de tudo. Ficava pensando que poderia ser uma piada, um sonho, uma brincadeira de mau gosto, mas não... era a verdade... a verdade que ela se esforçou para não enxergar. Seu coração está leve e puro agora, embora não tão puro quanto lhe pareceu aquele surpreendente olhar de anjo que um dia cruzou o seu. O que sobrou daquela pureza foram lembranças.
Não estava a fim de se recolher. Teve a impressão de que, se dormisse, seria impossível acordar no dia seguinte. Então resolveu ficar ali, contemplando a lua, muito mais consoladora do que qualquer ombro amigo.
Há coisas na vida que não tem explicação mesmo. E não era preciso compreender nada, apenas se acostumar com a idéia. Afinal de contas, tudo é passageiro, tudo é finito. Os bens materiais se acabam, os sentimentos e os melhores aromas se evaporam no ar. Com o ser humano não poderia ser diferente.
Se algum dia lhe perguntarem o que restou dele, ela responderá: eu. Porque ela era parte dele, a parte mais prática, menos emotiva, mas era a parte que ele mais gostava. E ele tinha algo de maravilhoso, o otimismo. Sempre procurando ver o lado bom da vida. No início, chegou a pensar que fosse ingenuidade, mas descobriu que era só um truque para fazer diminuir o peso do fardo que ele carregava... às vezes, isso até a irritava e dizia: será que não dá para você encarar a vida de maneira mais realista? Não dava. A realidade havia sido muito cruel com ele. Seu lugar era mesmo a fantasia, agora compreendia.
Eles se conheceram num bar, numa noite de sexta-feira. Ela estava curtindo uma fossa por ter levado um fora de um babaca que fingia amar. Na certa porque tinha medo de descobrir o que era o amor de verdade. Mas quando o viu ali, logo se encantou. Ele veio a ela com seu olhar doce e sorriso terno. Logo tornaram-se amigos íntimos; ela contou a ele sua decepção amorosa e ele a consolou como se se conhecessem há anos.
Concluíram, depois de algum tempo, que não há melhor forma de iniciar um relacionamento. Fazendo o caminho inverso. Começa-se descobrindo as fragilidades , os defeitos, os deslizes e prepara-se para não cometer os mesmos erros que causaram mágoa ao outro no passado. Elimina-se, então, tudo o que possa trazer a tristeza, e assim as pessoas ficam livres para conhecer apenas as qualidades um do outro e serem felizes. E assim foi por algum tempo...
Até que um dia ele contou a ela um segredo. Sentou a seu lado e começou a falar, com uma naturalidade assustadora, que tinha pouco tempo de vida. Ela achou que fosse mais uma das “peças” que ele costumava pregar, nas quais ela sempre caía feito uma patinha, fazendo-o soltar uma gostosa gargalhada. Nervosa, ela esbravejava, mas havia um jeito muito fácil de desarmá-la. Bastava um beijo para que ela ficasse mansinha de novo.
Bem, dessa vez ele tinha um ar sério, incomum. Ficou esperando uma risada debochada depois da sua cara de espanto, mas ela não veio. Então, abraçou-o, aos prantos. Ele preferiu o silêncio.
Depois daquele dia, resolveram não contar o tempo. Não sabiam sequer quando um dia começava e outro terminava; apenas viviam, juntos, batalhando pela vida. Os médicos não davam esperanças, mas ele resistia, queria vencer Deus pelo cansaço. Achava-se mais forte que Ele. Em momento algum deixou-se dominar pela fúria. Apesar de sua juventude, ele era sábio e lhe ensinou que a luta só termina quando o combatente dá o último suspiro. Era assim que ele pensava, e foi pensando assim que ela atirou na imensidão do mar as cinzas que restaram naquela caixinha de madeira que carregava junto ao peito. Afinal, a sua luta ainda não terminou.»
«Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.
Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.
Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.
As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.
Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.
Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?
Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.
Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:
— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.
E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.
Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.
Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração.