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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

In Sete sonetos e um quarto


Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.


(Ed. Dom Quixote, 2005)
Copiei daqui

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Sermão da Montanha

Alguém há-de subir de novo a uma montanha
do outro lado das palavras do outro lado do tempo

Alguém há-de falar no meio do deserto
dizer o quando o como o para quê


Não é possível que as tribos não se encontrem
não é possível que se percam sem sentido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém com doze tábuas e um poema

Não é possível ficar onde se está
despojados de luz despojados do ser
O Deus que está em Delfos mandará o oráculo
a água que fala há-de falar de novo

Não é possível o homem tão perdido

Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém há-de gritar: deixa passar meu povo
Alguém com doze tábuas e um sentido.

In "Babilónia".

domingo, 12 de julho de 2009

Agora mesmo

Foto de Guidinha Pinto



Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou
Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se

A Terra gira e nós também
A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento
É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

In "Chegar Aqui"