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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Saudades da vida

Twin Towers, Lisboa

Voltando a Vinicius de Morais, de que terei saudades? De acordar de manhã, no verão, rodeado de cheiros que zumbem? Do mar em Vila Praia de Âncora? Dos cães ferrugentos de Colares e dos seus olhos lamentosos? Da Beira Alta? Da Beira Alta sem dúvida, e do juiz que se gabava de parar o pensamento. Dos gatos que ao fecharem os olhos cessam de existir e se transformam em almofadas de sofá?
8:11 Quarta feira, 22 de Dez de 2010
Uma ocasião uma jornalista perguntou a Vinicius de Morais se tinha medo da morte.
O poeta respondeu com um sorriso:
- Não, minha filha. Tenho saudades da vida.
De tempos a tempos esta frase de Vinicius regressa-me à ideia. Penso: de que terei saudades, eu? Maça-me morrer porque se fica defunto muito tempo. Estou certo que o meu pai anda chateadíssimo no cemitério, sem livros, sem música, sem oportunidades para ser desagradável. O meu avô, tão diferente do filho, já deve ter feito montes de amigos por lá, todos a comerem percebes à volta de uma mesa grande. E o meu tio Eloy joga às cartas com os outros, a sorrir de satisfação quando lhe saem naipes bons. Costumava inchar na cadeira, a olhar para eles, repetindo
- Muito bem, senhores oficiais
da mesma maneira que, se as coisas corriam mal, se lamentava
- Há muitos anos que sou beleguim e nunca vi uma coisa assim
e vejo-o daqui, sem uma prega, elegantíssimo. A minha tia Madalena lê livros grossos, a minha tia Bia ensina piano e eu sinto medo de não haver papel, nem caneta, nem amigos, nem mulheres. Mas, voltando a Vinicius de Morais, de que terei saudades? De acordar de manhã, no verão, rodeado de cheiros que zumbem? Do mar em Vila Praia de Âncora? Dos cães ferrugentos de Colares e dos seus olhos lamentosos? Da Beira Alta? Da Beira Alta sem dúvida, e do juiz que se gabava de parar o pensamento. Dos gatos que ao fecharem os olhos cessam de existir e se transformam em almofadas de sofá? Da minha filha Isabel ao levá-la a um museu para lhe encher de amor pela beleza os tenros neurónios:
- Estás a gostar?
- Acho um bocado aborrecente
e não tive coragem de dizer que também acho os museus um bocado aborrecentes. Não ligava muito aos quadros, ou antes não ligava um pito aos quadros mas, na época de eu criança, havia escarradores cromados, a cada dez telas, que me interessavam muitíssimo. O problema é que nunca soube cuspir em condições. Ainda hoje não sei cuspir decentemente e, não estou a brincar, envergonho-me disso. No transporte para o liceu sempre admirei os cavalheiros que tiravam um lenço muito bem dobrado da algibeira, o abriam numa lentidão preciosa, puxavam a alma dos pulmões, depositavam-na no lenço num gorgolejo de ralo, competente, profundo, examinavam a alma com satisfação, tornavam a dobrar o lenço e faziam o resto do trajecto com ela nas calças. Talvez seja por isso que nem lenço uso: quando me acho fungoso luto comigo mesmo para não limpar o nariz na manga: a maior parte das vezes consigo. Vou ter saudades daqueles que se assoam com dignidade e estrondo e dos outros, mais comuns, detentores de um poder de síntese que, desgraçadamente, me falta. Passa uma rapariga e eles, logo
- És muita boa
numa concisão admirável, a acotevelarem um sócio distraído
- Viste?
O sócio já só apanha a rapariga ao longe mas concorda por solidariedade
- Chega o verão e descascam-se logo
e o do poder de síntese remata
- Todas umas putas
que é um ponto final que não admite acrescentos, ei-las catalogadas em definitivo, de modo que se passa aos méritos da cerveja preta que, além de acabar com a sede, é óptima para tirar nódoas, seja na camisa, seja no estômago
- Até limpam as úlceras
limpam as úlceras e amortecem o presunto:
- Se as pessoas mamassem uma preta a meio da tarde ninguém adoecia.
Segue-se a inspecção da sola do sapato
- Olha-me para a porcaria deste buraco aqui
e um discurso acerca das fragilidades e misérias do cabedal. Terei saudades disto? Do senhor da mercearia ao pé de mim vou ter de certeza. Está sempre sozinho na loja, atrás do balcão, educadíssimo. Se lhe comprar um maço de cigarros e disser
- Obrigado
responde de imediato
- Obrigado somos nós
num tom papal, que me leva a imaginá-lo cercado de criaturas invisíveis para mim mas óbvias para ele, uma multidão de espectros sobre os quais reina com benevolência. Tem sobrancelhas grossíssimas que não vão inteiramente com os seus gestos fidalgos. Nunca vi ninguém entrar na mercearia a não ser eu. Mentira: uma ocasião estava lá uma velhota que comprou dois pêssegos, a contar o dinheiro como se estivesse a despedir-se para sempre de um filho único. Lembro-me que fitou as moedas, até elas se sumirem na gaveta, numa ternura que me rasgou ao meio o coração. Depois sumiu-se numa portinha ao lado, com uma pantufa no pé esquerdo e uma bota no direito. O degrau da portinha levou-lhe um quarto de hora a escalar. O senhor da mercearia, esquecido do
- Obrigao somos nós
abriu-me os horizontes
- É a dona Esperança que já foi muito rica.
Foi muito rica e agora um pêssego, uma sopinha talvez, os restos da riqueza no prego. Terei saudades disto, também? Para citar a Isabel a vida, de tempos a tempos, é aborrecente. Será que, há séculos, a dona Esperança muito boa? Será que o marido cuspia em condições? É pouco provável porque o marido, segundo o senhor da mercearia, doutor.
- Doutor de tribunais
especificou ele com admiração
- Doutor de tribunais
escutei eu já na rua. Penso que se o meu tio Eloy visse aquilo comentava
- Há muitos anos que sou beleguim e nunca vi uma coisa assim.
Eu também não, tio, eu também não. E, já agora, quando Vinicius de Morais se referia a saudades da vida em que vida pensava?

Texto roubado daí http://aeiou.visao.pt/saudades-da-vida=f583564

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

«Pedro» - uma estória de amor que esfriou?

«A mulher pôs a travessa na mesa, serviu-o, esperou que ele começasse a comer e disse

- Já não gosto de ti.

Por cima da cabeça dela, um pouco à esquerda, um quadro, representando barcos de pesca na areia de uma praia, que a tia do homem lhes deixara. Ao lado do quadro um prato chinês, preso com dentinhos de arame. A mulher serviu-se mas não começou comer. O homem reparou que tirara a aliança, e a mão pareceu-lhe mais bonita assim nua.

- Já não gosto de ti

repetiu ela. O jantar era peixe assado e uma ambulância passou aos gritos na rua. O homem teve a impressão que o andar estremecia com o ruído. Reparou também que a mulher apanhara o cabelo com o elástico e, contra o costume, não se maquilhara.

- Para poder chorar à vontade pensou. Pensou

- Detesta que a pintura lhe escorra pela cara abaixo

e demorou-se à cata de uma espinha que sentia no interior da boca e custava a encontrar com a língua.

- É a primeira vez que te vejo sem aliança

disse o homem, através do peixe e das batatas. Lembrou-se da mãe

- Engole primeiro e fala depois

sozinha no seu apartamento de viúva. Não jantava, essa: bebia chá e fazia uma torrada. Quase sem manteiga porque o colesterol andava alto. A mulher remexia o prato com o garfo, olhando-o sempre.

- Acho melhor separarmo-nos

disse ela, juntando as batatas com a faca

- Acho que a única solução é separarmo-nos

e o homem a lembrar-se da tia do quadro, de chapelinho quando saía às compras. De chapelinho sempre. Sem mencionar o broche. Morava com o gato. Talvez o melhor fosse comprar um gato. Perguntou

- Porquê?

e logo a seguir descobriu a espinha. Em vez de a depositar no talher, numa espécie de beijo, puxou-a com dois dedos.

- Que modos

ralhou a mãe ausente, e por pouco não sorriu à mãe, a concordar. Sentia uma espécie de cócegas no interior do peito, o coração, talvez.

- Não quero viver mais contigo

disse a mulher, e o homem teve a certeza de se encontrar com uma estranha. As cócegas no interior do peito aumentaram. O filho achava-se de férias com o irmão da mulher, e ele deu por si com saudades do filho.

- Queres viver com quem?

perguntou o homem, já salvo da espinha e com a boca livre. Livre o tanas: a vida inteira enrolada nos dentes.

- Tenho medo que me dê uma coisa

pensou ele a olhar o quadro dos barcos

- Tenho mesmo medo que me dê uma coisa

e a mulher afigurou-se-lhe, de súbito, um carrasco implacável.

- Podes não gostar de mim mas eu gosto de ti

disse o homem com o olho no quadro dos barcos, a recomendar a si mesmo não te enerves, não percas a cabeça, não faças cenas. A tia, de chapelinho, afagava-lhe o ombro

- Não é o fim do mundo, Pedro

anunciava ela no seu tonzito agudo

- Não é o fim do mundo.

Podia não ser o fim do mundo para a tia mas era o fim do mundo para o homem.

- É melhor que saias até domingo, antes que o miúdo volte

disse a mulher. Há quanto tempo andava ela a magicar aquilo?

- E para tua informação não quero viver com ninguém, quero ficar sozinha.

O peixe começava a esfriar, o mundo inteiro gelado, uma segunda ambulância em gritos diferentes. Não eram só as cócegas no interior do peito, verificou o homem, as pernas tremiam-lhe, os braços tremiam-lhe. Até a garganta tremia

- Isabel

e a mão da mulher sem aliança, tranquila, poisada na toalha.

- Nunca simpatizaste com o quadro dos barcos, pois não?

perguntou ele, nunca simpatizaste com o quadro dos barcos e já não gostas de mim. A mulher não tocara no jantar. O homem poisou os talheres, lutando com as lágrimas. Acontecesse o que acontecesse ia a conseguir vencê-las. E limitou-se a desejar que a próxima ambulância o levasse consigo. »

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sátira aos HOMENS quando estão com gripe

Imagem buscada na NET

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Obrigada Anabela :)