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terça-feira, 26 de julho de 2011

ATÉ AO SABUGO

Junto ao mar no Caminho dos Caídos, Vila Praia D'Âncora


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.

In: «OS POEMAS POSSÍVEIS (1966), (2ª ed., Caminho, 1982)»



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

No coração, talvez.


No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.


In "Os Poemas Possíveis"

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não me Peçam Razões

Já não está - (16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010)

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.